Mais um autêntico faroeste brasileiro está a caminho dos cinemas
Reza a Lenda promete ser uma grande aposta para o crescente gênero de ação brasileiro
"Um lugar onde só o sangue molha a terra", diz uma das taglines que estampam cartazes do filme Reza a Lenda, e a julgar pelas imagens que circulam atualmente pela internet além do ótimo trailer, será mais um autêntico faroeste brasileiro a exemplo do ótimo Serra Pelada(2013) ou de Faroeste Caboclo (2013). Reza a Lenda é dirigido por Homero Olivetto, roteirista de Bruna Surfistinha, e tem estréia prevista para janeiro de 2016.
Pelo que se pode ver nas belas imagens, a produção explora sabiamente a aridez e o cenário inóspito do sertão para contar uma história de perseguição e vingança. Cauã Reymond é Ara, o protagonista da trama que é caçado pelo coronel Ténorio (Humberto Martins), além de ser disputado pelo amor de duas mulheres, Severina, interpretada por Sophie Charlotte (Serra Pelada) e Laura (Luisa Arraes). A exemplo dos ótimos filmes àcima citados, o longa de Homero Olivetto tem todos os elementos necessários para conquistar o prestígio do público e enriquecer um pouco mais o cinema nacional com produções cada vez mais variadas e de grande qualidade. (R.A.)
Filme brasileiro retrata busca do ouro regada a sangue e traição
O território conhecido como Serra Pelada foi o maior garimpo a céu aberto do mundo, localizado na cidade de Curionópolis, interior do Pará, bem próximo da floresta amazônica. Pessoas de várias partes do país e até de países vizinhos se aventuraram pela região no início da década de 1980 atraídas por riqueza e prosperidade. O filme dirigido e roteirizado por Heitor Dhalia mostra a trajetória de Juliano e Joaquim, amigos desde a infância que se aventuram pelo inóspito território que em pouco tempo descobrem ser uma terra sem lei.
O roteiro fictício apresenta uma trama muito bem construída e encabeçada por Juliano Cazarré no papel de Juliano, um sujeito despojado e de aparência física forte, e seu amigo Joaquim vivido por Júlio Andrade, sujeito magrela e aparência frágil, porém metódico e muito inteligente, pois é um professor. Os amigos unem forças no trabalho, cada um com seus objetivos, Joaquim especialmente quer cumprir a promessa que fez à esposa de voltar para casa rico e dar uma vida melhor à ela e sua filha. Juliano por sua vez parece não ter um norte exato na vida, a não ser a riqueza, algo que poderá ser a ruína de sua vida no decorrer da narrativa.
Inevitavelmente Serra Pelada é um verdadeiro faroeste brasileiro, pois a busca por riquezas numa terra inóspita onde impera a lei do mais forte é o fio condutor da trama que mostra uma gradual transformação (ou revelação) de seus personagens movidos por sonhos ou apenas cobiça como pode ser visto na ganância que todos expressam em querer a todo custo delimitar sua própria área de garimpo, o que ocasionou em vários conflitos e mortes sem nenhuma intervenção do governo naquela época de ditadura militar. E quase toda a região do garimpo era dominada e controlada por coronéis como o traiçoeiro Lindo Rico, interpretado de forma um tanto hilária por Wagner Moura.
A trama também destaca o trabalho de mulheres, que não eram necessariamente garimpeiras, mas prostitutas e dançarinas de boate e como é dito em off no início da narrativa, algumas enriqueceram ganhando dinheiro de garimpeiros que gastavam tudo com elas ou ainda mulheres que tinham a sorte de se envolver com os poderosos coronéis da região, como se pode ver na história de Tereza, vivida por Sophie Charlotte, amante do coronel Miranda, interpretado por Matheus Nachtergaele.
Traições, emboscadas e perseguições moldam a ação do longa tanto quanto o ótimo elenco que preenche a tela satisfatoriamente embora a cena de luta apresente uma quebra de rítimo devido à edição cheia de cortes que Dhalia utilizou e também as demais cenas físicas são bem executadas embora filmadas com câmera tremida.
O longa orçado em 8,4 milhões de reais tem uma bela fotografia composta de tons que variam do marrom ao amarelo dando um aspecto levemente dourado e bem empoeirado representando fielmente o aspecto sujo da terra do ouro cujas filmagens ocorreram em Mogi das Cruzes no interior de São Paulo num cenário visualmente bem parecido com a Serra Pelada da década de 80, e as imagens reais de arquivo jornalístico da época inseridas cuidadosamente no filme completam o visual da película.
O filme exibido em outubro de 2013 nos cinemas, também foi transmitido em janeiro último na TV aberta pela rede globo em formato de minissérie em capítulos curtos, mas obviamente fica melhor apreciado nos formatos digitais para o público não correr o risco de perder nenhum momento de uma valiosa embora pequena saga do ouro.
Adaptação de canção oitentista para as telas do cinema resulta em autêntico filme de ação, drama e romance
Composta
em 1979 por Renato Russo, mas lançada oficialmente apenas em 1987, Faroeste
Caboclo é com certeza uma das músicas mais bem elaboradas do rock nacional,
além de ser uma das mais longas com cerca de 10 minutos. A envolvente história
de João de Santo Cristo com suas aventuras e desventuras no sertão e depois na
cidade grande e seu amor por Maria Lucia, a moça da cidade, embalou gerações ao
longo de 26 anos e as notícias de que seria adaptada para o cinema finalmente se confirmaram como pôde ser comprovado em maio deste ano.
Como acontece em quase todas as adaptações feitas para o cinema, a música de Renato Russo sofreu consideráveis modificações para tornar-se uma história completa em todos os aspectos para tornar-se crível aos olhos do público em geral, sejam estes fãs da música ou não. O filme dirigido por René Sampaio é ambientado na década de 1970, período da ditadura militar e época um tanto distante da realidade atual, exceto por questões sociais que sempre ressoam atuais em nossa sociedade contemporânea como o racismo, por exemplo, argumento que permeia o roteiro da obra em seu personagem principal, João de Santo Cristo que além de negro, é pobre e tem pouco estudo, embora tenha muita inteligência e uma peculiar esperteza, essenciais para a sobrevivência no violento submundo de violência e tráfico de drogas no qual ele cresce e vive. E particularmente a cena de estupro que João sofre tanto na música quanto na metade da narrativa, é o estopim para sua explosão de fúria que se desenvolve no decorrer da trama.
O roteiro escrito por Victor Atherino e Marcos Berstein toma algumas liberdades poéticas em relação à letra da música, de modo que os atos de João de Santo Cristo são sempre justificáveis e ao contrário do que diz a canção, no filme ele nunca "rouba dinheiro da igreja" e nem é "o terror da sertania onde mora", ou seja, João é anti-herói mas não é mau caráter, pois entra em confronto com pessoas verdadeiramente más como o seu rival, o traficante Jeremias e o policial corrupto Marco Aurélio, ótimo vilão interpretado por Antonio Calloni, que não existe na letra da música.
René Sampaio demonstra notável talento na direção de atores, todos talentosos por sinal, Fabrício Boliveira traz a energia e o carisma necessários para compor o João de Santo Cristo tanto quanto Ísis Valverde tem o charme e a sensibilidade de Maria Lucia, e a química do casal dá o tom adequado para o romance que remete fielmente à letra da canção. Felipe Abib por sua vez, compõe Jeremias como um autêntico cafajeste além de ser um dos "playboyzinhos da cidade" como diz a música.
Além da ação de ótima qualidade o ponto alto da película obviamente é o esperado duelo final que faz jus ao título Faroeste Caboclo, pois Sampaio filma o confronto dos antagonistas como num autêntico western e não há como negar sua homenagem ao mestre Sergio Leone pelo modo como retrata os atores com closes extremos em seus rostos ou o enquadramento mostrando ambos encarando-se como num ritual em campo aberto aberto prestes a sacarem suas armas para o destino final de suas vidas. Entretanto, mais uma vez com a liberdade poética do roteiro, não há público para ver o confronto ao contrário do que diz a música, apenas Maria Lucia que tal como na canção intervém no destino de ambos.
Mesmo com um retrato um pouco diferente e por vezes suave em relação à letra original, o filme mantém o espírito da canção embora visualmente seja mais uma estória policial do que propriamente um faroeste - entretanto a jornada de João de Santo de Cristo, do sertão à cidade grande é o itinerário certo para a bela estória escrita e interpretada por Renato Russo. Só é difícil saber se o filme seria agradável ao artista tanto quanto os 168 versos de sua inesquecível música.
TRAILER
Faroeste Cabloco (2013)
Direção: René Sampaio
Roteiro: Victor Atherino e Marcos Berstein
Elenco: Fabrício Boliveira, Ísis Valverde, Felipe Abib, Antonio Calloni, César Trancoso, Alex Sander, Marcos Paulo, Cinara Leal, Rodrigo Pandolfo
O cinema brasileiro evoluiu visilmente nos ultimos quinze anos e uma grande variedade de títulos tomou conta das telas do cinema e posteriormente dos formatos digitais. Provavelmente muitos fãs do cinemão de Hollywood já se perguntaram quando o Brasil faria um filme de ação e como isso se daria. A resposta veio por meio de uma película pouco diferente das produções norte-americanas. Segurança Nacional, dirigido por Roberto Carminati e roteirizado pelo mesmo em parceria com Bruno Fantini e Daniel Ortiz é o tal filme de ação brasileiro - a terrível resposta para a interessante pergunta sobre o gênero em questão ser produzido no Brasil.
Roberto Carminati
Segurança Nacional foi filmado em 2006 e misteriosamente só foi lançado nos cinemas em 2010. Ou seja, bem depois de Tropa de Elite 1 e 2, que são os autênticos filmes de ação brasileiros em todos os sentidos. O filme de Carminati até consegue trazer elementos interessantes para compor um filme de ação no Brasil, tais como o exército brasileiro, a força aérea e até mesmo a ABIN (Agencia Brasileira de Inteligencia), que é uma especia de "CIA brasileira". Os grandes problemas são o herói Marcos Rocha (Tiago Lacerda), um agente secreto que mais parece um Jack Bauer (24 Horas) ou Ethan Hunt (Missão Impossível) brasileiro e o roteiro repleto de situações inverossímeis que em quase nada remetem à realidade de nosso país - ao contrário assemelham-se a roteiros ruins de certos filmes duvidosos de Hollywood.
A idéia de um presidente negro para o Brasil é interessante e bem representada por Milton Gonçalves e embora possa remeter à eleição do presidente Obama, o filme foi feito bem antes das eleições presidenciais norte-americanas. Porém é muito difícil engolir a idéia de que um governante brasileiro visite escolas públicas para fazer palestras para crianças sobre combate às drogas!!!! Bem como a idéia de que ele possa se abrigar num bunker (abrigo anti-aéreo) em situação de ameaça de ataque nuclear, embora não se saiba de tal informação.
O Traficante colombiano
Explosão atômica na Amazônia
O vilão, um poderoso traficante colombiano até bem interpretado pelo ator mexicano Joaqin Cosio tem a "interessante" (???) idéia de explodir uma bomba atômica em plena Amazônia a fim de destruir o SIVAM (Sistema de Vigilancia da Amazonia) para poder literalmente expandir o caminho de sua rota de tráfico de drogas. Só não dá pra aceitar que o presidente diria em rede nacional para toda a população que o SIVAM seria desativado a pedido do traficante devido à ameaça de uma nova explosão. Certamente os roteiristas não pensaram que tal notícia espalharia o panico entre a população e caso o presidente resolvesse passar um mensagem a respeito da segurança do país, poderia fazê-lo por meio do ministro da defesa. Enfim , tropeços narrativos à parte passemos ao próximo parágrafo.
Técnicamente bem realizado, o filme conta com uma boa edição de som e uma ótima fotografia, retratando boa parte da extensão da Amazonia bem como as locações da sede da ABIN e o Palácio do Planalto em Brasília. Os caças da força aérea e a coreografia encenada por soldados do exército são muito bem vindas para representar o poderio bélico / militar do Brasil que por sinal é bem estruturado.
Enfim, é muito difícil acreditar num filme de ação que não retrate quase nada da situação de nosso país, exceto os já citados Tropa de Elite 1 e 2. Em Segurança Nacional, um político corrupto foi ótima sacada e resultou num personagem bem representado por Gracindo Junior, pena que não seja argumento forte o suficiente para sustentar o filme, que vai se afundando cada vez mais até culminar no desfecho hollywoodiano simplório em que o herói nada convicente vivido por Tiago Lacerda enfrenta o vilão no braço, salva a mocinha indefesa (a bonitinha Viviane Vitoretti) que por sinal é sua namorada, e ainda salva o país de um desastre maior que o roteiro do filme.