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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

spaghetti western

KEOMA

Há 40 anos estreava um clássico do western italiano estrelado por Franco Nero


  Em 1976 estreava nos cinemas italianos um dos melhores filmes estrelados por Franco Nero: Keoma. O ator que dez anos antes interpretara Django, estava de vola em mais um personagem icônico e por sinal num western atípico, muito diferente dos westerns hollywoodianos, ou seja, um típico spaguetti western, gênero que então já estava enraizado no imaginário das platéias graças aos grandes filmes que brilharam a partir da metade da década de 1960 como Três Homens em Conflito (1966), Era Uma Vez No Oeste (1968) e outros, os quais inauguraram o gênero italiano de faroestes.
  Dirigido e roteirizado por Enzo G. Castellari a trama do filme  tem sua ambientação no oeste pós Guerra Civil norte-americana e é interessante notar como esse evento foi um tema muito recorrente nos westerns de um modo geral dada a importância fundamental desse período histórico que foi determinante para o desenvolvimento sócio-político dos Estados Unidos como um todo.


  Keoma, um mestiço (meio índio, meio branco) e destemido pistoleiro após o final da guerra civil resolve retornar para sua cidade natal em busca de um novo norte para sua vida. O roteiro de Castellari tem uma premissa muito parecida com Django, já que no início da trama Keoma salva uma mulher chamada Lisa, aprisionada por um bando de malfeitores que pretendiam executá-la, sob alegação de que a mesma é portadora de uma peste, uma doença fatal que se abatera sobre uma cidade e outros prisioneiros também estavam condenados a morrer sob tal acusação.

Capitão Caldwell
  Entretanto o filme assemelha-se a Django apenas nessa idéia central, mas os rumos de Keoma são bem diferentes já que o mestiço retorna à cidade para visitar seu pai, o velho Shannon interpretado por Willian Berger  e confrontar uma antiga richa familiar com seus meio-irmãos, Butch (Orso Maria Guerrini), Lenny (Antonio Marsina) e Sam (John Loffredo). Os planos de Keoma para viver uma vida pacífica falham totalmente de modo que o mestiço coloca-se num fogo cruzado para proteger Lisa (Olga Karlatos) e proteger a população da cidade que encontra-se sob a ameaça do bando do Capitão Caldwell (Donald O´Brian), um tirano que dominou completamente a cidade controlando a entrada de carregamento de remédios, único meio de tratamento para a tal doença que assola o local.

Os irmãos Shannon
  Produzido por Manolo Bolognini, mesmo produtor de Django, o filme de Castellari traz uma produção bem mais apurada em termos de cenário e também de figurino a começar pelas vestimentas de Keoma que reforçam suas raízes indígenas tanto quanto sua criação urbana. A narrativa de Castellari é envolvente e muito primorosa chegando a render momentos de contemplação não apenas pela ação retratada numa câmera lenta que beira a perfeição, mas também pelo modo como retrata os atores cujas interpretações são o grande alicerce desta obra.



  Franco Nero brilha como sempre conferindo força e energia necessária ao seu personagem como poucos atores conseguem realmente fazer, principalmente devido ao seu olhar altamente expressivo demonstrando que parece ter nascido para interpretar personagens que possuem uma força interior sobre-humana parecendo torná-los maiores que a vida. O elenco também conta com a presença do grande ator norte-americano Woddy Strode como o gigante negro George e ator austríaco Willian Berger no papel de William Shannon.



Lisa, interpretada pela atriz grega
 Olga Karlatos

  O roteiro traz profundas metáforas sobre a vida e a morte representadas na figura de uma velha bruxa que parece ser onipresente, pois só o mestiço a vê em certos momentos, enquanto que Lisa, a mulher salva por Keoma no início do filme parece representar a vida, já que traz uma criança em seu ventre e pode dar à luz a qualquer momento. Dentre as inúmeras qualidades, a narrativa é embalada pela excelente trilha sonora interpretada pela dupla Sibyl & Guy.



  Conta-se que Keoma é um dos últimos spaguetti western, pois o ciclo de filmes do então gênero italiano de faroeste já estava chegando ao fim bem como o western de Hollywood também já vinha se desgastando e rendendo cada vez menos produções de modo que o western americano caminhava para um fim definitivo que se daria no início dos anos 80. É lamentável que Keoma não tornou-se um ícone como Django, embora teve sucesso no cinemas e fora reprisado inúmeras vezes na Tv aberta. Entretanto, se o filme de Castellari é mesmo o último representante do spaguetti western não é nada difícil concluir o porquê. Simplesmente uma obra prima. (R.A.)

TRAILER



Keoma (1976, Itália)


Direção e roteiro: Enzo G. Castellari

Elenco: Franco Nero, Olga Karlatos, William Berger, Woddy Strode, 
Donald O´Brian, Orso Maria Guerrini, Antonio Marsina, John Loffredo






terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

jubileu faroestico

DJANGO

Há 50 anos surgia nas telas do cinema o mais amado pistoleiro do Spaghetti Western


  Em 1966, dos sets de filmagem de algum estúdio italiano estreava nas telas do cinema o personagem que veio a se tornar o mais icônico do gênero western, e em especial do spaguetti western, gênero surgido na Itália. Sob a direção de Sergio Corbucci (1926 - 1990), um promissor cineasta italiano, Django ganhava vida na interpretação do jovem ator Franco Nero, que dali a pouco tempo tornaria-se astro do cinema italiano e de renome internacional como era de se esperar.
   O gênero faroeste, genuinamente norte americano por narrar aventuras ambientadas na época da colonização dos Estados Unidos, conquistou muito a admiração do público italiano. Embora não se saiba bem ao certo o porquê de tal admiração, o gênero ganhou vida própria no cinema italiano nas mãos de hábeis roteiristas e de diretores que produziram uma grande safra de filmes que lotavam as salas de cinema no país da macarronada chegando a conquistar o público do mundo todo.

Sergio Corbucci
   O gênero Spaghetti Western surgiu precisamente com o diretor Sergio Leone, que comandou três filmes de grande sucesso que ficaram conhecidos como a trilogia dos dólares: Por Um Punhado de Dólares (1964), Por Uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966), todos estrelados por Clint Eastwood, ator norte-americano que mais tarde tornaria-se um dos maiores astros de Hollywood.
  Mas o que isso tem a ver com Django? Tem tudo a ver, pois após o sucesso dos três filmes acima citados, estreava Django, com um visual bastante original e idéias inovadoras que inevitavelmente o tornaram um dos maiores cults do cinema mundial e foi determinante para definir as convenções do spaghetti western. Afinal, como não querer ver o filme de um pistoleiro que se veste de preto, anda a pé e arrasta um caixão?? Impossível não querer conhecer tal personagem e tentar desvendar os mistérios de sua jornada.

O tom sombrio do filme e o perfil misterioso do personagem até então era algo
nunca visto em westerns, mas tonou-se característico nas produções italianas

  Franco Nero, jovem e iniciante ator com apenas 23 anos, teve a ótima idéia de vestir-se de preto para compor seu personagem, pois de certo modo a cor  remete a seu nome Nero que em italiano significa negro, conforme relata o ator nos extras do dvd do filme. Além disso, Nero teve primeiramente a vitória de ser escolhido para o papel, já que foi selecionado entre 8 atores, vários dos quais já eram astros do cinema italiano. 
  Ao salvar a vida de uma mulher indefesa logo no início da narrativa, a jornada de Django começa justamente por ter salvo tal mulher chamada Maria, considerada uma traidora por ter fugido das garras de Major Jackson (Eduardo Fajardo), o homem mais rico da região, dono de terras que oprime sem escrúpulos a população de uma pequena cidade situada próximo à fronteira do México. Jackson é um magnata racista que subjuga mexicanos que aparecem em sua cidade e impõe sua própria lei pelas armas. 
Django salva Maria de um grupo de homens que queriam executá-la
  Entretanto, Maria também é considerada uma traidora pelos mexicanos, pois ela também já esteve do lado deles anteriormente, mas por algum motivo acabou fugindo e passou para o lado do Major Jackson, ou seja, Maria (Loredana Nusciak) é uma mulher em busca de um norte para uma vida segura em meio a uma guerra entre americanos e mexicanos que habitam nas inóspitas proximidades da fronteira. 

Major Jackson



General Hugo
  Ao hospedar-se no saloon da pequena cidade, Django descobre o que ocorre e porque os poucos habitantes vivem sob o domínio do medo, afinal trata-se de uma terra sem lei onde as ordens do Major Jackson imperam sob o local. Ao entrar em confronto com os homens do major em um saloon, Django então coloca-se no fogo cruzado no qual a pequena cidade se encontra, entre a opressão do major e os imigrantes mexicanos.    Embora Django seja a princípio o herói da curiosa trama, dispondo-se a enfrentar sem medo algum os homens de Jackson, mais adiante entre  o segundo e terceiro ato do filme ele revela-se um anti-herói já que após roubar uma grande quantia em ouro junto a um bando de mexicanos cujo líder, general Hugo (José Bodalo), que ele conhece de longa data, o misterioso pistoleiro arma um engenhoso plano para enganar os mexicanos e fugir sozinho com o precioso carregamento.
  Como se pode notar, o filme segue idéias semelhantes aos filmes de Sergio Leone estrelados por Eastwood cujos personagens não eram tão exemplares como heróis, e agiam por interesse próprio manipulando todos ao seu redor. O enredo que permeia tanto os filmes de Leone quanto o filme de Corbucci é originário do filme japônes Yojimbo (1963), obra de Akira Kurosawa que narra a estória de um samurai que chega a uma pequena cidade dominada por duas quadrilhas rivais e consegue jogar uma contra a outra para que ambas se destruam - reza a lenda que ambos os Sergios eram fãs da obra de Kurosawa e após ingressarem no cinema como diretores, cada um teve a idéia de fazer sua própria versão do filme nipônico, porém versões estas não autorizadas pelos produtores japoneses de modo que rendeu processo judicial na época. 

Por décadas o filme foi proibido nos cinemas do Reino Unido
devido ao excesso de violência
  Emoldurado por inúmeras qualidades, Django parecia mesmo predestinado a torna-se um grande sucesso do cinema italiano e um dos maiores ícones da cultura pop, a começar por Franco Nero que ao ser escolhido pelos produtores Manolo Bolognini e Franco Rosselini, tornou-se astro precoce, algo que foi muito surpreendente já que famosos astros da época como o norte-americano Mark Damon e o espanhol Peter Martel também estavam cogitados para interpretar o pistoleiro.

  Dentre as surpresas do roteiro, a mais óbvia e marcante é o que Django carregava dentro do caixão que ele arrastava por caminhos lamacentos em boa parte do filme - ao abrir a tampa num momento que precede um violento tiroteio, o misterioso pistoleiro retira de dentro uma pesada metralhadora para então confrontar o exercito de assassinos enviado pelo Major Jackson, e em menos de 1 minuto Django derruba todos os homens do major sob as rajadas de sua potente metralhadora, uma maravilha da tecnologia então recente da época retratada.


   Nota-se que a produção obviamente teve um orçamento pequeno sendo que basicamente a cidade "fantasma" parece ser o único cenário construído para o filme. Contudo, Corbucci soube casar muito bem os poucos recursos de que dispunha com idéias originais  para compor sua "pequena" obra prima do spaghetti western. Além do mais, Django possivelmente tem a mais inesquecível canção tema já feita para um filme do gênero - belamente composta por Luis Bacalov e interpretada por Roberto Fia na versão original italiana. Porém, fora da Itália a música ficou mais conhecida na voz de Rocky Roberts na versão cantada em inglês.

O duelo no cemitério, cena que encerra o filme é uma das mais originais do
spaghetti western, pois Django com as mãos feridas e quebradas duela com 6 algozes
   Django conquistou legiões de fãs no mundo todo e seu grande sucesso deu origem a inúmeros filmes que tentaram em vão repetir o sucesso, mas com outros atores e roteiros absurdos que não tinham nada a ver com a idéia original concebida por Sergio Corbucci e Bruno Corbucci. Obviamente o fã mais ilustre do pistoleiro é o cineasta norte-americano Quentin Tarantino que amante confesso de spaghetti westerns prestou bela homenagem ao personagem no sucesso Django Livre (2013) convidando Franco Nero numa divertida participação.
  O filme de Corbucci nunca teve uma refilmagem, mas teve uma sequência oficial em 1987 intitulada Django, A volta do vingador, novamente estrelado por Franco Nero, mas dirigido por Nello Rossati - porém, muito distante da idéia original e com roteiro um tanto inferior. Sem dúvida só o filme original de Corbucci permaneceu insuperável e sobrevive seguramente como um dos maiores faroestes de todos os tempos. (R.A.)


Música tema na voz de Roberto Fia



Na voz de Rocky Roberts


TRAILER



Django (Itália, 1966)

Roteiro: Sergio Corbucci, Bruno Corbucci, Franco Rosseti, Jose Gutierrez Maesso, Piero Vivarelli

Direção:

Elenco: Franco Nero, Loredana Nusciak, Eduardo Fajardo, Jose Bodalo, Angel Alvarez